Como sempre acordei muito antes das oito e a televisão ainda não dava nada. Ecrã cinzento, às vezes uma barra de cores, um zumbido baixo. Sentei-me no sofá de pijama e esperei. Não havia alternativa e também não havia pressa. Quando a emissão começou, comi o pão com Tulicreme a ver os desenhos animados e o dia pôde começar.
A escola foi a pé. Pelo caminho fui apanhando os outros… no cruzamento abaixo de minha casa as minhas primas, Luísa e Raquel, e o meu vizinho Filipe e, às vezes, também aparecia o Jorge, a correr da estrada que vinha de cima, sempre atrasado. O trajeto demorou o dobro do necessário. Havia uma pedra onde se tentava saltar para o muro do lado, umas cerejas das árvores junto à estrada que pediam ser apanhadas, um esconderijo novo ultrassecreto por explorar.
No recreio havia berlindes e elástico. Os berlindes tinham categorias. O elástico tinha níveis. E havia o cedro, uma árvore gigante no meio do pátio com as raízes a levantar os tijolos do chão. Subíamos todos. Crianças espalhadas pelos ramos, empoleiradas como um bando de primatas a partilhar as copas de uma floresta tropical, a trocar histórias, segredos e insultos a dois metros do chão.
Nesse dia era o primeiro de junho, Dia Mundial da Criança, e houve Jogos Tradicionais, uma competição desportiva entre escolas. Corridas de sacos, colher com ovo, estafeta… uma espécie de Jogos Sem Fronteiras, aquele concurso da televisão que passava nas férias de Verão cujas provas reproduzíamos em brincadeiras durante o resto do ano. Tínhamos treinado durante semanas a fio para trazer o troféu para a nossa escola. No final havia sumo de laranja em pacotinhos de cartão com palhinha e bolos de arroz que só comíamos em dia de festa, como aquele, pois claro. Era consolo suficiente para os alunos derrotados e que não levavam a medalha de latão para exibir e pendurar na barra da cama.
Cheguei a casa com a camisola suja e os joelhos esfolados. A mochila ficou no corredor. Havia trabalhos de casa, mas primeiro… a cassete VHS com a gravação do último Festival da Eurovisão da Canção, que já tinha visto e revisto pela milésima vez desde o passado mês de maio. Rebobinei, voltei atrás, voltei a ver.
Depois dos trabalhos, os primos. Moravam mesmo ao lado e aparecíamos sem aviso na casa um dos outros. A macaca estava desenhada na terra batida, meio apagada do dia anterior, refiz os números. Jogámos até à hora jantar. A certa altura não havia nada para fazer e fiquei ali, de pé no quintal, a olhar para nada. Não foi um problema. Do nada saiu uma cabana de paus que ficou a meio, um jogo inventado com regras que mudaram a cada rodada, e a exploração do quintal do vizinho que era proibida e por isso mesmo obrigatória.
O jantar foi à mesa, toda a família junta. A televisão estava ligada no canto, mas era o fundo, não o centro. A dada altura a minha mãe comenta que depois da telenovela ia dar o novo filme do Van Damme. Ainda amuei para ver se conseguir ver, mas a resposta era óbvia: não dava, estava na hora do Vitinho, o dia para as crianças portuguesas tinha acabado oficialmente (uma lei geral, sem direito a recurso).
Fui para a cama com o corpo cansado e nele, memórias gravei que hoje, dia 01 de junho de 2026, lembro como mãe/ pai para não esquecer o que é essencial: uma criança precisa de tempo sem destino, de tédio para inventar, de um corpo para cansar e explorar, de um mundo físico para sentir e de presença genuína que não se divide com um ecrã. Podemos e devemos dar essas experiências aos nossos filhos, mesmo nos dias frenéticos que correm, num mundo muito diferente daquele que conhecemos enquanto crianças. E essa dádiva não exige perfeição.
Às vezes, exige apenas que nos lembremos…
Diana Figueiredo, Psicóloga Clínica, Cédula Nº 10211 – OPP, Unidade de Pediatria do São Mateus Hospital


